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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Nossos deuses são super-heróis

O mundo dos quadrinhos, como um todo, é uma dimensão fascinante. Dentro dessa dimensão, cada um tem suas preferências, mas o ramo que provavelmente conta com a maior legião de seguidores provavelmente é o segmento dos quadrinhos de super-heróis, com sua tendência a enquadrar arquétipos místicos, divinos e religiosos na figura do super-herói. E é justamente uma discussão aprofundada sobre esta característica do gênero que o autor Christopher Knowles nos oferece nesta obra.

Trata-se de um trabalho muito bem pesquisado, iniciando com uma reflexão sobre os contextos sociais em que o quadrinho de super-herói obtém maior ou menor relevância diante de seu público. O autor prossegue descrevendo a relação dos super-heróis com o cinema e traçando um paralelo entre a admiração dos fãs e o tipo de adoração prestada aos deuses das antigas religiões de mistérios do mundo antigo. Seguindo essa linha, a coisa começa a esquentar realmente na Parte II, Mistérios Antigos; aqui Knowles dá um show de referências a diversas tradições ocultas, místicas e religiosas, chegando mesmo, em alguns momentos, perto de soar como erudição pedante e pretensiosa. Felizmente, ele sempre consegue deixar claro que trata-se, sim, de um trabalho sincero e se em algum momento chega a dar a impressão de que ele está pavoneando sua cultura, é apenas porque DE FATO esse tema exige um grau de cultura elevado; e conseguir fazer da forma que ele fez, abordar temas tão profundos de maneira simples, compreensível e até envolvente, exige não apenas um alto domínio do assunto, mas também da própria naturalidade do texto. São explicados com detalhes os mitos e divindades sumérios, egípcios, gregos, romanos, nórdicos, mitologia hebraica, racionalismo da revolução industrial, ordens ocultas vitorianas, maçonaria, rosicrucianismo, mormonismo, literatura romântica... Estabelecendo uma relação de continuidade dentre as citadas tradições e suas manifestações mais antigas até chegar à era dos pulps (Parte III do livro). Depois disso, chegamos à Parte IV, Os novos deuses, que se não for a melhor ou mais profunda parte da obra é provavelmente a mais compensadora, pois aqui Knowles une toda aquela erudição que poderia soar como vazia, destilada nos capítulos anteriores, e a canaliza para a sua relação com os super-heróis propriamente ditos, desde nomes BEM antigos, como Mandrake e Dr. Oculto (que ao promover o tipo do herói mágico foram o elo de ligação entre as tradições ancestrais e os futuros super-heróis em sua forma clássica) até manifestações mais modernas, de Robocop a John Constantine. Nesta seção percebe-se a intenção do autor em organizar a obra não cronologicamente, mas sim em torno de conceitos ligados a cada tipo de herói. No fim das contas, ao contrário do que possa parecer, isso acaba até colaborando com o fluir das idéias no decorrer do texto. Conforme nos aproximamos do fim do livro, temos uma seção (Parte V: Deuses e homens) dedicada a grandes nomes dos quadrinhos e suas contribuições para o prosseguimento dessa história de mistérios e lendas, e conclui dando um fechamento de tudo o que foi apresentado.
Minha visão sobre a obra? Muito boa. Consegue apresentar uma quantidade enorme de informações em um volume relativamente pequeno (248 páginas), apresenta algumas informações que eram completamente novas para mim (como os trechos sobre os vril-ya, uma raça com existência proposta por místicos do século XIX e uma das sementes da ideologia ariana de Hitler), ilustrações caprichadas de Joseph Michael Linsner, que em vez de retratar os heróis em suas formas oficiais apresenta interessantes representações baseadas nos conceitos expostos no livro. Talvez a grande escorregada mesmo seja, como já apontado pelo sempre grande Álvaro Moya no prefácio, o fato do autor centrar sua pesquisa nos Estados Unidos e no mundo Anglo-Saxão. Há toda uma tradição heróica no quadrinho europeu, incluindo aí até a figura icônica do cowboy, aproveitada pelos italianos. Isso para não mencionar toda a riqueza do quadrinho japonês, que poderia até dar OUTRO livro, mas justamente por considerar a relação da forma "quadrinho" com o papel do mito na civilização humana, mereceria mais fazer parte do mesmo livro, estabelecer uma relação, não uma divisão. Fora isso, o material é MESMO muito bom, sofrendo um pouco, porém, com deslizes na tradução, principalmente em nomes de alguns personagens, como Booster Gold e Blue Beetle (Gladiador Dourado e Besouro Azul, respectivamente. Mas são pequenos pormenores dentro de um todo maior que se sai bem harmonioso. Altamente recomendado a fãs de heróis que desejam compreender um pouco mais da profundidade em seus heróis e um bom "prefácio" antes de mergulhar de cabeça em Joseph Campbell.

Nossos deuses são super-heróis
Christopher Knowles
Ilustrações de Joseph Michael Linsner
Prefácio de Álvaro de Moya.
Editora Cultrix - 2007

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