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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Bem-vindo a N.H.K! e as Síndromes da Nova Era


Assim que terminei de ler o mangá Bem-Vindos a NHK! pensei: “Foda! Vai virar post”. Quis dividir com vocês a minha impressão sobre ele. Inicialmente era pra ser um post pequeno, mais um “na estante”, apesar de ter ficado com uma pulga atrás da orelha. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que a pulga estava certa em me incomodar! Descobri coisas muito mais interessantes relacionadas ao mangá, e tais coisas devem, sim, ser compartilhadas.
Bem-Vindo à NHK! (ou NHK! ni Youkoso! No original japonês) conta as “aventuras” de Tatsuhiro Sato, um rapaz que sofre da síndrome de “hikikomori”, que ao pé da letra significa algo como “isolado em casa”. Tatsuhiro vive trancado em seu apartamento há 4 anos, desde que largou a faculdade, sem nenhum contato externo, sem nunca sair de casa, alheio aos acontecimentos do mundo, apenas vivendo sob o sustento dos pais. O jovem passa por viagens constantes (e hilárias) causadas por remédios de tarja preta e muito acentuadas por seu estado psicológico delicado, a depressão iminente e as atormentações das anime songs exaustivamente repetidas no último volume por seu vizinho.



Certo dia, um grupo de ajuda bate em sua porta e lhe entrega um folheto com instruções de como se livrar da síndrome de Hikikomori, e é aí que a história efetivamente começa. Uma das garotas do grupo de ajuda, Misaki Nakahara, se interessa pelo caso do rapaz em particular e se oferece para curá-lo. Porém, junto com a ajuda de seu vizinho, um programador meio tarado, Misaki só o coloca em mais confusões ainda. O mangá é muito engraçado, com piadas visuais muito pertinentes e um traço lindo e forte. Cheio de referências à cultura nerd, otaku e internética e coisas comuns a quem vive nos grandes centros urbanos. Trata de forma escrachada assuntos sérios, ironizando tópicos polêmicos e até trágicos do Japão. E foi aí que a pulguinha começou a morder...







Bem Vindo a NHK torna cômico temas que na verdade são muito graves. Tatsuhiro, por influência de seu vizinho Yamazaki, entra de cabeça no mundo dos games eróticos (eroge) e pornografia infantil (lolicon), a ponto de passar um dia todo fotografando garotinhas na saída da escola e semanas a fio na internet colhendo imagens de “referência”. Logo em seguida, ele se acaba de gastar dinheiro em um pseudo paraíso otaku, consumindo infinidades de bugigangas inúteis. O mangá ainda aborda escola de mangá, preconceito, Freud, vício por droga receitada... E tudo isso no primeiro volume!



Fiquei encucada demais com tudo isso e resolvi pesquisar um pouco sobre o assunto. Percebi que as situações engraçadas vividas pelos personagens eram mais que apenas parte do enredo, eram críticas pesadíssimas à influência que mídia tem sobre o comportamento dos jovens japoneses. Influência que causa patologias absurdas em algumas pessoas. Em uma de suas alucinações, entre remédios e insanidades, Tatsuhiro culpa a rede de TV japonesa NHK pela síndrome de hikikomori e tudo o que não deu certo em sua vida e começa a acreditar em uma rede de conspiração tramada pela empresa.






Soa meio absurdo, mas se analisarmos friamente, tem um fundo de razão. O autor Tatsuhiko Takimoto tenta mostrar que a exposição constante a alguns temas específicos pode destruir uma mente humana. Em um dos textos que li sobre hikikomori, a grande maioria esmagadora dos que sofrem da síndrome são jovens otakus com dificuldade de relacionamento interpessoal e comunicação que se refugiaram nos animes, mangáse games. Refugiaram-se tanto, a ponto de se isolar do mundo. Esse tipo de comportamento é mais comum do que imaginamos, inclusive aqui no ocidente: pessoas obsessivas com um assunto específico, que preferem viver este tal assunto a fazer parte da rotina do mundo, que ignoram e até desgostam do contato ao vivo. A mídia impõe que sejamos perfeitos e no Japão a força que isso tem é muito mais devastadora, apesar de passarmos por isso constantemente por aqui. E quando não se atinge essa perfeição, as pessoas se sentem mal consigo mesmas, apartadas da sociedade, e a melhor forma de não serem tragadas para este buraco é o isolamento. Fica visível que a NHK não é só culpada pela síndrome de hikikomori, mas por outras pragas como vício por pornografia, dependência de internet, otakice extrema, vício por games...





O governo japonês (assim como o britânico e outros pelo mundo a fora) criou uma política de ajuda para pessoas com esta síndrome, entre outras também parecidas: jovens moças estimulam os hikikomoris a saírem de casa, marcam encontros, enviam cartas, telefonam. Interagem.
Eu poderia falar muito mais sobre este tema aqui, abrangendo outras patologias semelhantes como fobia social, introspecção, síndrome de Asperger. Poderia culpar a mídia, a ausência dos pais na criação, a educação deficientíssima. Mas prefiro não me estender. Só quis dar uma dica, um conselho a todos vocês, florezinhas: aproveite sua juventude, saia de casa, veja o sol, encontre pessoas. O inesperado é o maior exercício para o cérebro, o poder de improviso, a reação à alguma ação específica é o que nos faz evoluir (isso é fato, cientificamente provado), e a melhor forma de enfrentar o inesperado é no convívio com pessoas. Amplie seus horizontes e tenha novas experiências. Saia um pouco de GetaLife do Sul (como diriam alguns amiguinhos do twiiter!). É legal ser nerdinho e gostar de games, livros, internet, filmes... Mas divida seu tempo com essas coisas que você faz sozinho, por outras diversões que precisam de companhia também (sem maldade, hein?).








Atualizando...

Comecei a ver o anime de Bem-Vindo a NHK! assim que subi o post e sinceramente não gostei muito não. É um bom anime, a animação é boa, e consegue seguir a história do jeito possível, sem o uso de remédios e quase nenhum palavrão. O problema é que ficou com uma carga dramática exagerada, que não é a intenção do mangá. Não tem a comédia, as piadas visuais, as referências... É legal, mas poderia ser muito melhor...



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