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domingo, 22 de maio de 2011

Na estante: Selva Brasil



Foi com muito prazer que depois de um bom tempo sem pegar LIVROS novos para ler, peguei este Selva Brasil para retomar meu lado literário. E no fim das contas, não é que foi uma bela de uma escolha? Em mais essa tacada certeira do já carimbado Roberto de Sousa Causo, vemos um belo exemplo de como usar clichês de gênero de maneira consciente, sem cair na armadilha de tornar-se uma cópia desgastada e ao mesmo tempo mantendo um elo de familiaridade para o leitor.
Trata-se de um ótimo livro, com leitura leve, rápida e fluida, que não é prejudicada nem mesmo pelo uso constante de jargão militar. A única pisada de bola que vejo, por parte da Editora Draco, são algumas gafes de revisão. Nada que de fato interfira na leitura, mas pode incomodar um ou outro leitor com mais tendências a "cata-piolho".

A obra é uma história alternativa, passada no Brasil de 1993, em uma realidade onde um conflito se arrasta por duas décadas entre uma aliança latino-americana e uma coalizão de países europeus e dos EUA, pelo domínio de parte da Amazônia brasileira (perdida após os brasileiros terem invadido e tomado as Guianas). Nessa situação, somos apresentados a uma unidade militar brasileira a caminho de substituir outra unidade no estado do Amapá, onde descobrem um grupo de desertores e um plano para violar as regras que regem o confronto na região (Pois é. Regras para um conflito armado. E ISSO não é a parte de ficção, incrivelmente). Ao investigar o caso, o grupo acaba se deparando com uma tecnologia militar desconhecida que abre um portal entre a realidade deles e a nossa (ou será mesmo?).


Aí o leitor do blog diz "pô, Heder, olha o spoiler!", ao que eu respondo: em Selva Brasil, vemos que o foco do autor não é simplesmente em uma história como conto linear, mas sim nas reflexões que a mesma acarreta. Isso é algo que foge um pouco da literatura de ficção científica como o leitor médio está acostumado, mostrando uma forma literária mais madura. O que Causo faz aqui é pegar certos clichês da ficção científica (identifiquei pelo menos o uso de imagem militarista como manifestação pacifista da parte do autor e a interação dimensional, incluindo o "duplo" dimensional) e revestí-los de uma roupagem mais pessoal, usando no lugar fuzileiros espaciais numa colônia perdida, uma operação do exército brasileiro em conflito pela posse de um território.


Adicionados a esses clichês, estão características já presentes na obra anterior do autor, como a forte presença da natureza, uma noção de identidade entre forças/conceitos sobrenaturais com conceitos científicos e o conflito de uma força invasora contra uma força defensora (há pelo menos três instâncias de tais conflitos no decorrer da obra; aquela representada pela própria guerra, que é uma invasão territorial, geográfica, outra representada pelas forças paramilitares que "invadem" o âmbito formal de uma guerra travada por forças armadas regulares e por fim, a "invasão" do contato dimensional, que efetivamente deixa na dimensão do narrador/personagem homônimo o seu "duplo" dimensional).


Como já disse, o forte desta obra não é necessariamente o seu modo de contar uma história, mas sim o modo de usar uma realidade alternativa (na qual o protagonista/narrador é o próprio Causo) como forma de estimular uma reflexão sobre a identidade, sobre as pessoas que somos e as que poderíamos ter sido se os eventos ao nosso redor se desenrolassem de outra maneira. Essa é a proposta do livro e ele a cumpre muito bem, fazendo-o com uma voz própria, que não tenta imitar monstros sagrados da literatura de ficção estrangeira mas também não renega a influência dos mesmos.

Selva Brasil
Roberto de Sousa Causo
Editora Draco - 2010

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